No Natal a gente vem te buscar. Será?

04/12/2015

Há alguns meses, tive o grande prazer de fazer parte do universo de uma peça que retrata o convívio e os dramas dos núcleos familiares. Através dessa vivência, conheci pessoas e amigos que jamais me esquecerei.

Pude presenciar alguns momentos íntimos e únicos do Grupo PHOS de Teatro, e me senti parte desse grupo que, inclusive, é formado por atores de nossa cidade.

O texto “No Natal a gente vem te buscar” é de autoria de Naum Alves de Souza, e nos faz pensar e refletir em diversas situações que já passamos ou que, ao menos, ouvimos falar.

A obra é bastante interessante, pois desmistifica e escancara problemas cotidianos que muitas vezes fazemos questão de ignorar, fazendo-nos mergulhar de cabeça e nos identificarmos em muitos momentos, mesmo que indiretamente.

Esse processo de desmistificação é muito interessante, tanto que as personagens são tratadas apenas por seus “lugares” na sociedade: o Primo, a Mãe, a Irmã... E essa foi a melhor forma para que cada um dos expectadores pudessem se projetar nas histórias retratadas.

Toda a história é ambientada num passado um pouco distante, no qual muitas coisas ainda eram tratadas como verdadeiros tabus na sociedade.

 Apesar de se tratar de uma peça de época, os conflitos trazidos são bastante recorrentes em nossa sociedade atual: dívidas, morte, demência. Coloca-nos para pensar sobre aquilo e aqueles que são importantes em nossa vida.

São temas que mesmo a nossa sociedade atual sendo tão esclarecida, faz questão de mascarar, e Naum vem com o seu texto para escancarar essas questões e para nos mostrar que todas elas fazem parte dos núcleos familiares, independente de classe social, religião ou qualquer outra situação.

Na história podemos acompanhar a vida de uma família tradicional composta por pai, mãe, duas filhas e um filho biológicos. A família se completa com a adoção de um sobrinho que perde a mãe dando à luz seu segundo filho, causando muita dor e revolta na vida da personagem.

Todos crescem juntos, e cada um toma o seu rumo: a filha mais nova se casa, o filho vai trabalhar no exterior, a mais velha fica solteira e mora com os pais juntamente com o primo que, mesmo não sendo filho biológico, fica na casa dos tios acompanhando e vivenciando todos os problemas que vão se desenvolvendo na trama.

Ao final, os pais e o primo morrem, deixando a filha mais velha sozinha, que acaba por ficar louca e abandonada pelos outros dois irmãos.

O encerramento da peça não poderia ser mais emocionante: já em estado de demência, ela questiona se tudo o que se passou em sua vida foram as vontades de Deus. É nesse momento em que ela tem um instante de clareza e percebe que sua vida passou e ela não fez nada daquilo que gostaria de ter feito. Com os dois irmãos em sua casa, ela cria a falsa esperança de que eles poderão viver novamente juntos, porém, isso não acontece.

Uma das partes mais emocionantes é quando os irmãos prometem vir visitá-la no Natal. Como cada um possui sua vida formada, nenhum deles gostaria de se encarregar de cuidar daquela que, para eles, seria um enorme fardo. Obviamente, é dada a resposta negativa à seguinte pergunta: No Natal vocês vêm me buscar?

Todo o texto é bastante interessante e provocador, visto que existem os contrapostos de muitos assuntos polêmicos como a própria demência, o abandono e a religião.

Essa é realmente uma peça que nos coloca em questionamento sobre muitos aspectos de nossa cultura e sociedade. Valeu a pena tê-la assistido.

Espero que tenhamos a oportunidade de poder prestigiar esse espetáculo mais vezes em nossa cidade.

Por Pedro Henrique Mendonça

Estudante de Publicidade e Propaganda e Produtor Cultural e de Eventos

Última modificação em Sex, 04 de dezembro de 2015 20:57


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